17.03.2026

A religião como ferramenta na radicalização política no Brasil

Assim como nos EUA, mais do que um problema relacionado à polarização, portanto, estamos diante de um providencial e perigoso uso fundamentalista da religião como arma política.

Por Ana Carolina Evangelista

 

A religião parece brotar do chão cada vez que se analisa política no Brasil hoje. Seja na cobertura sobre eleições ou no que tem acontecido no Congresso Nacional, não conseguimos ficar um dia sem falar sobre como estão as intenções de voto no segmento evangélico ou sobre o posicionamento do deputado a, b ou c que destacou suas referências religiosas para justificar seu voto ou sua nova proposta de lei. Mas o que aconteceu? Por que vemos mais religião na política? Sempre esteve ali e nós é que não estávamos prestando atenção ou falando sobre o assunto? Por que não é mais possível falar sobre eleições e política no Brasil e não ter algum pontinho de religião ali querendo aparecer?

E será que tudo tem mesmo a ver com religião? Eu diria que não. Estamos falando sobre uma invasão indiscriminada da religião na política ou se estamos assistindo a uma incorporação sistemática, radicalizada e instrumental da religião por um dos pólos politico-ideológicos? A segunda opção parece mais verdadeira.

Grupos com identidades políticas, religiosas e etárias distintas avaliam essas mudanças no Brasil de maneiras muito diferentes. Em comum, há um forte componente de polarização política. 

Adultos mais jovens tendem a defender de forma mais firme a separação entre religião e governo e veem com menos preocupação a pluralização religiosa na sociedade e a redução da influência religiosa na vida pública em geral. Já grupos mais velhos e segmentos religiosos tradicionais de matriz cristã - católicos e evangélicos - expressam maior desconforto com uma tendência observada no Brasil de mais pluralidade religiosa e dependendo do espaço público, mais diversidade de olhares, vozes e visões. A religião segue muito presente numa sociedade como a brasileira de maioria historicamente católica e agora católica e evangélica, seguindo numa matriz cristã, Mas essa presença segue cercada de tensões, incompreensões mútuas e disputas políticas que reforçam divisões já existentes.

Forças da extrema direita no Brasil hoje são as que mais mobilizam a religião ao lidar com os desafios cotidianos e concretos das pessoas em meio à crise social, econômica, política e de segurança pública. Nesse contexto, políticos - religiosos ou não - mobilizam o religioso e suas formas contemporâneas mais individualizantes e dogmáticas como uma forma de apresentar alternativas que permitam um retorno da ordem, da previsibilidade, da segurança e da unidade. 

Na política brasileira hoje, a religião também é um recurso discursivo de pertencimento e recuperação da ordem utilizado pelos ultraconservadores, ou neoconservadores, para fazer avançar suas pautas nos espaços institucionais. Não é apenas sobre determinados grupos religiosos buscando impor a sua moral para a totalidade da sociedade via políticas de Estado, mas é, também, sobre as novas facetas do conservadorismo brasileiro, que usam a religião para se comunicar com as pessoas e criar vínculos simbólicos e afetivos com elas. Esta construção torna praticamente impossível de se dissociar moral religiosa, agenda política, demandas sociais e dilemas pessoais.  

Ao mesmo tempo, a presença de lideranças religiosas no espaço público e na política tem uma enorme influência em moldar esse cenário e, hoje, as lideranças religiosas com força política e voz pública marcante são as de cunho ultraconservador. É um movimento duplo: o ser político que mobiliza o religioso e os líderes religiosos, hoje em sua maioria evangélicos, que usam o espaço da política institucional para impor a moral do seu segmento como agenda geral.

Apenas a partir de 2010, as pesquisas de opinião e de intenção de voto no Brasil começaram a destacar as clivagens com relação à identidade e pertencimento religioso. Em 2008, por exemplo, pesquisa de intenção de voto sobre a sucessão presidencial depois de dois mandatos do presidente Lula não media identidade religiosa dos respondentes. Não era uma questão para entender o perfil do eleitor naquele momento. Não era, ainda.

Em pleno ano eleitoral, em 2010, para o Datafolha, por exemplo, foi mais importante entender como votariam leitores do jornal Folha de S.Paulo do que identificar o perfil do voto de determinados segmentos religiosos. A pesquisa feita às vésperas do 1o turno não destacava o pertencimento religioso nas intenções de voto; já a do segundo turno sim, quando explodiu o debate sobre a questão do aborto e isso virou tema central das campanhas entre os dois candidatos - Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB). Desde então, e apenas a partir de então, os institutos de pesquisa de opinião passaram a destacar a religião nas suas análises.

Nada disso acontece por acaso. Foi o período de reações ao III Programa Nacional de Direitos Humanos (o PNDH-3), apresentado pelo governo Lula 2. Reações que levam a uma articulação sem precedentes entre católicos e evangélicos no Congresso Nacional pela “defesa da família”, com o foco principal no combate à descriminalização do aborto e ao reconhecimento de direitos da população LGBTQIA+. Foram temas que dominaram a disputa eleitoral para a Presidência naquele momento e que não sairiam do debate público e da pauta central do ativismo político de grupos religiosos. 

Nas eleições nacionais seguintes, essa maior aliança entre parlamentares religiosos e não religiosos ultraconservadores expandiu-se para outras agendas como educação e segurança pública, como vimos nitidamente em 2018. Uma espécie de nova agenda religiosa-conservadora mais radicalizada que viria a ser um pilar do bolsonarismo e da aliança bolsonarismo-Bíblia vista hoje no Congresso Nacional.

O deslocamento, portanto, de parte significativa do eleitorado brasileiro para a extrema direita já vinha sendo observado em eleições anteriores, mas aprofundou-se nas eleições de 2018. Uma possível "direita cristã versão brasileira" - versão brasileira porque aqui conta com aliados não necessariamente cristãos e muitas vezes nada religiosos - é um vetor importante de uma radicalização política em um dos polos. Uma radicalização de caráter intolerante, excludente e que visa impor a sua moral a toda a sociedade.

Assim como nos EUA, mais do que um problema relacionado à polarização, portanto, estamos diante de um providencial e perigoso uso fundamentalista da religião como arma política - e esse uso se dá num dos pólos, uma extrema direita que se aferra à Bíblia, ao ultraconservadorismo e aos cristãos como forma de demonização do outro e de radicalização da política. 

Por um lado, não sabemos explicar todas as camadas por trás de uma ultradireita que aumentou sua base social e também ocupa o espaço público para vocalizar suas demandas e visões de mundo. Por outro, não queremos aceitar a ideia de que essas forças políticas e ideológicas que ganharam as ruas não sairão de lá tão cedo, assim como as estruturas clássicas da esquerda de articulação política e intermediação social nos territórios não são mais as que cumprem esse papel com a mesma credibilidade e apelo popular.

Sobre a autora

Ana Carolina Evangelista é pesquisadora e diretora executiva do ISER (Instituto de Estudos da Religião) no Rio de Janeiro, Brasil. Ela é cientista política com mestrados em Relações Internacionais e Administração Pública. Foi pesquisadora visitante no Sciences Po, em Paris, França. Realiza pesquisas e escreve artigos para a imprensa sobre o sistema político brasileiro, eleições e o papel dos grupos religiosos na política.

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